terça-feira, 3 de julho de 2012

QUANTOS ARTISTAS PERDEREMOS MAIS?


Este ano, a mídia noticiou caso de menino de 12 anos que se
matou, em Vitória, vítima de bullying homofóbico na escola. Descrito
como criança “alegre e sonhadora”, Roliver de Jesus teria sido
continuamente vítima de agressões nas quais era chamado de “bicha”,
“gay” etc. Véspera de carnaval, escreveu carta anunciando seu
suicídio e enforca-se. Uma colega de Roliver declarou: “ele dizia que
queria ser um grande artista”.

Fatos assim não são raros no Brasil e em outros países. Para
muitas crianças e jovens, a escola tem sido o lugar para o aprendizado
do olhar do preconceito, do estigma e da injúria, seja para praticá-los
contra outros, seja para suportar a violência de que se é vítima. Esse
aprendizado muitas vezes ocorre simultaneamente com a
aprendizagem da própria língua. Aprende-se muito cedo que se pode
maltratar alguém com palavras e outros aprendem a carregar por
muito tempo (ou para sempre) as sequelas de insultos que funcionam
como espécie de interdito à existência. Designados logo cedo por
palavras como “bicha”, “veado”, “mulherzinha”, “sapatão”, meninos e
meninas, confusos com os sentidos desses termos, vão tendo seus
destinos sociais traçados, quando ainda eles pouco ou nada sabem de
si. Destinos que podem variar muito: sorte quando são belos! Outros
destinos atam alguns sobreviventes ao signo de sua vulnerabilidade
psicológica e social produzida pelo estigma.

A pergunta que cabe fazer é: por que razão o governo federal
brasileiro deixou de implantar o programa Escola sem Homofobia,
sendo o bullying homofóbico na escola tão corriqueiro e de efeitos tão
perversos? Pergunta especial caberia à Presidente da República,
Dilma Rousseff, que vetou o kit educativo contra a homofobia proposto
pelo MEC: quantas crianças como Roliver de Jesus, com sonhos de
serem artistas, poetas, escritores, filósofos, cientistas, médicos,
arquitetos, juízes etc., perderemos mais, por suicídio ou assassinato,
sem que nossos governantes promovam políticas educativas de
combate à homofobia? O que mais governantes e gestores públicos
esperam para se decidirem por corajosas políticas de enfrentamento às
crueldades praticadas contras gays, lésbicas e transexuais na
sociedade brasileira?


editorial

Como produto de uma educação social generalizada nas
famílias e reforçada nas escolas e pelas mídias, a homofobia somente
pode ser combatida por meio de uma contraeducação à educação
homofóbica. Contraeducação crítica à ideologia da heterossexualidade
como única via normal da sexualidade, estigmatizante da
homossexualidade como anormalidade, disfunção sexual, desvio
moral. Essa contraeducação não pretende ser “propaganda da
homossexualidade” (como equivocadamente a Presidente da
República falou à nação), mas crítica ao preconceito homofóbico e
relativização de instituições históricas como a cultura da
heterossexualidade, que, negando-se como invenção histórica, impõese
como um fato natural. Aliás, se o assunto for propaganda, que dizer
da heterossexualização da esfera pública por meio de outdoors,
novelas, publicidades, canções, como uma espécie de reiteração
social obsessiva da heterossexualidade como norma?
Para aqueles que vivem o massacre do preconceito e da
discriminação, decisões são esperadas dos governantes, em todos os
níveis, que sejam portadoras da esperança que teremos uma
sociedade sem homofobia amanhã. De governos que se apresentam
como comprometidos com transformações, não se pode aceitar que
permitam a chantagem política, de natureza religiosa ou outra, em
nome da governabilidade, admitindo que atrocidades continuem a
acontecer contra aqueles que o preconceito pretende isolar como uma
maldita espécie sexual à parte. O Brasil não necessita apenas de
desenvolvimento econômico, mas também de desenvolvimento
cultural, intelectual, moral. Não o terá se continuar conservador e
homofóbico.

Na organização deste número, por colaboração dos autores
que nos enviaram seus artigos e pelo trabalho de nossos consultores,
conseguimos conjugar reflexões teóricas e metodológicas sobre as
questões da homossexualidade, travestilidade e gênero nas suas
diversas interfaces com outras questões sociais. Reunindo na mesma
edição textos clássicos e textos que tratam de questões da atualidade
brasileira e mundial, oferecemos às leitoras e aos leitores reflexões
críticas sobre temas que constituem o foco da revista.
Menção especial cabe fazer às traduções de Evans-Pritchard e
Paul Goodman: a primeira, realizada por Felipe Bruno Martins


Fernandes e Dennis Wayne Werner, oferece a leitura em português de
texto do antropólogo britânico que está entre os principais expoentes
da fundação e desenvolvimento da antropologia; seu texto sobre a
homossexualidade entre os Azande, como esclarecem os tradutores,
“é citado como fundador de um subcampo da etnologia comprometido
com os estudos de sociedades não homofóbicas”. A tradução
publicada nesta edição tem a permissão da American Anthropological
Association. O segundo, a tradução de Paul Goodman, é colaboração
entusiasmada do tradutor Chico Guedes, que fez chegar a Bagoas texto
do escritor estadunidense, um ensaio de 1969, pioneiro no uso
político do termo queer antes que se convertesse, em resposta à
homofobia, numa categoria acadêmica e do ativismo.

A partir desta edição, a Bagoas estará disponível também no
Portal de Periódicos da UFRN http://www.periodicos.ufrn.br/ojs, em
continuidade ao princípio de ampliação do acesso ao conhecimento
produzido nas universidades. Continuamos com o site
http://www.cchla.ufrn.br/bagoas e com a versão impressa da revista,
disponível à venda em livrarias e pelo nosso site.

Que nossa alegria com a edição de mais um número da
Bagoas seja também a alegria de nossas leitoras e leitores!

Alípio de Sousa Filho
Editor

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